Editorial Ave Rara


 

                                                             

O FORASTEIRO

  A Harley azul-cobalto aproximou-se vagarosamente do centro da Vila, deslizando com lampejos de resplendor sagrado sob o sol dardejante de Julho, até que, calmamente, o condutor accionou o pisca-pisca e manobrou a máquina, fazendo-a deter-se frente à porta do bar. Desceu o descanso com a biqueira da bota e, com elevada destreza, desmontou, estendendo o olhar pela calmaria da praça. Bateu com as botas na calçada da rua, de forma a distender os músculos, mas o gesto, levíssimo, mais parecia um exercício para apurar a solidez do chão. Depois, com parcimónia, retirou o capacete e pendurou-o no guiador da moto.

Tinha um rosto bem traçado, algumas poucas rugas ligeiras, e umas dúzias de cabelos brancos manifestando-se-lhe na vasta cabeleira que fazia lembrar a de um nobre antigo. Trajava umas calças de ganga de boa marca. Para cima, envergava uma camisa branca, de manga curta e bolsos de ambos os lados do peito, que lhe caía bem e fazia conjunto com o azul da ganga das calças e a camurça castanha das botas que calçava. Um relógio de pulso aço-ouro, brilhando sob a agressão silenciosa dos raios solares, vincava mais ainda o charme do homem.

As raparigas, sentadas à mesa da pequena esplanada olharam-se, sorrindo disfarçadamente. Nem elas próprias sabiam se sorriam de desprezo pela parcimónia do homem, se de admiração pelo seu porte de cavaleiro medieval.

Era de admiração e, tacitamente, assumiram-no:

“Ui!”, gemeu uma delas, em voz baixa, estacando os olhos azuis na figura ainda ágil do forasteiro.

“Um borracho!”, respondeu, num sussurro, a outra, uma morena esguia de cabelos pretos, aos cachinhos. Ficaram ambas a olhar, descaradamente.

O rapaz vintaneiro que com elas ocupava a mesa enciumou-se:

“Um cota!”

A morena contrariou-o:

“Até nem é!”

“É um cota!”, repetiu o moço. “Lá porque anda de mota, não deixa de ser um cota!”

A mesma rapariga perguntou secamente:

“Que tem a mota a ver?!”

“As mulheres gostam de motas.”

A de olhos azuis, cabelos doirados e lisos tocando levemente os ombros, até ali calada, foi em defesa da amiga:

“Por que é que os homens novos são tão burros? E, depois, dizes que as loiras é que são!”

“Mas, não posso achar que é um cota? Para mim é um cota!”, voltou o rapaz, não cuidando de baixar a voz, como que num desafio ao outro.

Foi a de cabelos claros que, baixando o tom e desviando os olhos para longe, num disfarce, pôs um travão na conversa:

Shiuuu!”

Calaram-se. As raparigas continuaram a olhar o forasteiro, entre o comedido e o descarado. O colega, de cabeça baixa, remexeu nervosamente com a colher os restos de borra e açúcar depositados no fundo da chávena. O forasteiro deu três passos decididos para a esplanada e sentou-se na primeira mesa, perto da moto. Teria quarenta anos; quarenta e cinco, talvez. Mas podia ter apenas trinta e oito, ou quarenta e dois. Era um daqueles homens a quem não é fácil decifrar a idade sem consultar um documento de identidade.

Levantou a mão, tentando chamar a atenção do empregado do café.

“Por favor...”, disse, numa voz circunspecta e ao mesmo tempo quente.

Um homenzinho de meia idade, de camisa branca e avental preto, sobre calças da mesma cor, rodando uma bandeja de metal sobre a ponta do indicador esquerdo, aproximou-se, parecendo enfastiado por ter de atender mais um cliente:

“Que deseja?”

“Tem cerveja preta?”

“Temos. De copo ou garrafa?”

“De garrafa. Fresca.”

Enquanto homem desaparecia no interior do bar para aviar o pedido, o forasteiro levantou-se e dirigiu-se à moto. Abriu um dos sacos laterais, em couro escuro, retirou um maço de tabaco e um isqueiro, e voltou a sentar-se no seu lugar, com os mesmos modos calmos da chegada. Acendeu um cigarro, encheu os pulmões de fumo, e depois foi-o soltando em rodinhas perfeitas, executadas com um gesto maquinal do queixo, ficando seguidamente quieto a observar os pequenos círculos que se desfaziam sob o efeito da magra brisa que corria do norte.

De longe a longe, um ou outro automóvel cruzava pachorrentamente a praça a caminho de um destino qualquer. À distância, as poucas casas de comércio mantinham-se de portas abertas, mas não havia clientes a entrar ou a sair. Parecia que a vida parara à espera de um momento mais fresco.

“Obrigado”, agradeceu ao barman quando este lhe colocou em cima da mesa duas pequenas rodelas de felpo, sobre as quais depositou a garrafa de Sagres preta e um copo. O barman ia retirar-se quando o forasteiro levantou ligeiramente a mão direita. “Se faz favor...”

O outro voltou-se ligeiramente.

“Diga.”

“Poderá indicar-me um hotelzinho, aqui por perto, onde se possa dormir bem e barato?”

O barman fixou-o com um olhar seco.

“Posso indicar-lhe um hotel. Bom e barato...”

O forasteiro ensaiou um gesto de desagravo agitando a mão aberta, como que a pedir desculpas.

“Essa do bom e barato não conta. Queria apenas que me indicasse um hotelzinho.”

O barman gostou do gesto franco e a resposta foi mais longe do que era costume nas informações que prestava aos clientes.

“Só há um hotel aqui, na vila. Pequenito, mas limpo e agradável. Contorne aí a praça, suba essa rua e lá no cimo, encontra um prédio de dois andares, de cor cinza. Tem uma porção de bandeiras à porta. É o hotel. Duas estrelas, mas muito limpo e agradável.”

O forasteiro agradeceu e bebeu mais um trago. O cigarro estava quase no fim. Amassou-o contra o fundo do cinzeiro de vidro que havia sobre a mesa e recostou-se na cadeira, estendendo o olhar para longe, sem o fixar em coisa alguma.

As raparigas pareciam hipnotizadas pela sua presença.

“É mesmo um borracho”, repetiu-se a morena, num sorridente sussurro. “Quem será?”

“Tem pinta de actor de cinema”, respondeu a de olhos azuis. “Aquele cabelo...”

A outra olhou de canto, disfarçando.

“É mesmo! Tem um cabelo lindíssimo. E aqueles fios brancos dão-lhe uma classe...”

O rapaz que as acompanhava apalpou os bolsos, encontrou uma moeda de dois euros que segurou entre dois dedos e acenou ao barman, para dentro da sala. Quando recebeu o troco, uma quantidade de pequenas peças douradas, levantou-se e perguntou, virando-  -se para as moças, em visível desconforto:

“Ficam ou vêm?”

“Ficamos mais um pouco”, responderam, quase em simultâneo.

“Então, chau!”

E, de novo, as duas à uma:

Chau!”

Caminhou, apressadamente, até desaparecer na esquina da praça. O forasteiro mantinha-se quieto e silencioso, com o olhar perdido num ponto qualquer, desinteres-        sado do movimento como se fosse a única criatura presente num raio de muitos quilómetros.

 

*

 

O brilho implacável do sol não o deixava ver claramente, facilitando a concen-  tração: imaginava o rosto do filho, pequenito ainda, correndo pelo apartamento onde habitaram, da sala para o quarto e do quarto para a sala. Olhitos escuros, brilhantes, cabelos lisos e compridos, ondulando a cada passo dado, a voz ainda dócil pergun-    tando se podia mudar de canal para ver desenhos animados. Tudo era então harmonioso. Havia família, aconchego, a criança que fazia a alegria dos momentos que possivelmente seriam menos alegres, quebrando as arestas mais vincadas de uma vida a dois. E havia as festas. O Natal, a Páscoa. E as férias, a praia. Agora, sentia apenas o peso da solidão. Podia dormir até tarde, deitar-se à hora que queria, comer quando tivesse fome, os horários deixaram de ter importância. Até o relógio era dispensável. Havia uma imensa certeza de liberdade, é certo, mas uma ainda maior sensação de vazio, talvez mesmo de solidão...

 

*

 

A morena retirou-o do estado de concentração:

“Desculpe...”

Virou-se. A rapariga, com um cigarro entre os dedos, apontava-lhe o isqueiro poisado sobre a mesa.

“... posso?”

Pegou o isqueiro, uma peça de metal prateado com uma marca de cigarros gravada na face mais larga e, calmamente, entregou-lho.

“Faça o favor.”

A moça acendeu o isqueiro, mantendo-o aceso por breves instante, até que a ponta do cigarro ardesse em chama. Tentava ganhar tempo e coragem. A pergunta saiu-lhe numa voz quase inaudível:

“Desculpe a minha curiosidade, mas... está cá de passagem?”

O homem fixou-a e ela reparou, então, pela primeira vez, que ele tinha uns olhos frios como as manhãs de Inverno. Mas a sua voz era terna:

“Talvez...”

A rapariga sentiu-se envergonhada, arrependida da curiosidade. Sentiu o sangue aflorar-lhe ao rosto; sabia que tinha o rosto vermelho.

“Desculpe...”

“Não tem de que se desculpar. Quer sentar-se?”, perguntou com a mesma voz grave e terna com que falara ao barman. “Sente-se.”

A rapariga olhou para a outra mesa, a amiga sozinha, dividia-se entre sentar-se ou pedir de novo desculpas e voltar ao seu lugar. Ele adivinhou-lhe o pensamento:

“Convide a sua amiga. Pago-lhes uma bebida”, disse, estendo-lhe a mão. “Sou o João.”

“Eu sou a Ana”, disse a rapariga, respondendo ao cumprimento. “A minha amiga chama-se Sílvia. Somos estudantes, estamos em férias.”

Sentaram-se ambas, meio envergonhadas, procurando o lugar mais distante dele na pequena mesa redonda.

Ele retirou do maço outro cigarro e acendeu-o.

“Ana e Sílvia, estudantes...”

“Em férias, como a Ana disse”, respondeu a de olhos azuis, na tentativa de quebrar o gelo que pudesse subsistir na conversa. “E o João? não o conheço de cá...”

“É. Não sou daqui.”

“Ah!”

“Estou de passagem. Ou melhor: estou aqui, e penso ficar um ou dois dias.”

“E é de onde?”

“Agora, sou de todo o lado.”

Sílvia franziu o sobrolho. Ele continuou:

“Viajo, neste mês de férias. Trinta dias de completa vadiagem... bebem o quê?...”

As raparigas escolheram coca-cola. Enquanto faziam a encomenda ao barman, ele voltou a desviar o olhar, e a fixá-lo à distância.

 

*

 

«Como pode quebrar-se uma cadeia que durou quinze anos?» pensou. «Como pode perder-se, assim, alguém de quem se gosta tanto?» As saudades não o deixavam raciocinar claramente, mas tentou, assim mesmo, entender e justificar. Não deve ser fácil a um rapaz de dezasseis anos aceitar a separação dos pais... Se houvesse cautela na actuação dos adultos, talvez tudo fosse diferente, talvez a relação pudesse manter-se, ultrapassar o momento crítico, e depois a vida continuaria. Mas todos querem opinar, dizer que sabem. E sabem o quê? Quem sabe comandar as emoções, as próprias, as alheias? O homem é uma perigosa caixa de surpresas, desigual, sempre desigual na resolução dos problemas. E alguns a quererem que exista uma resolução standarizada. Lembrou-se de uma velha frase, que escutara nem sabia bem onde, nem a quem: «Quem não sabe o que diz, sabe muito se ficar calado...»

 

*

 

O empregado do café colocou as garrafas e os copos sobre a mesa, usando as mesmas bases de felpos que já havia colocado sob a garrafa e o copo da cerveja, e desculpou-se por não estarem muito frescas.

“É possível colocar-lhe duas pedras de gelo?” pediu Ana. E voltando-se para o forasteiro: “Dizia que está em viagem...”

O forasteiro voltou à mesa:

“Este ano decidi que viajaria durante um mês. Fui para Sul, entrei em Espanha e depois fui subindo, pelo interior, parando em cada cidadezinha medieval para apreciar a arquitectura que os espanhóis, honra lhes seja, têm sabido conservar... E vocês, são estudantes de quê?”

“Eu, de Gestão”, disse Sílvia. “A Ana, de Contabilidade.”

“Profissões do futuro.”

“Queremos que sim.”

“Hão-de ser. Aliás, já o são hoje. E vocês têm tudo pela frente.”

As raparigas acharam-lhe desalento na voz.

“Temos todos.”

“É verdade. Mas hão-de aprender que a partir de certo período da nossa vida o futuro é diferente. Há quem diga que o futuro é amanhã. Dizer isso é fácil, é básico. Toda a gente sabe que, tecnicamente, o futuro é amanhã. Mas se nos referimos ao nosso próprio futuro, ele só pode ser amanhã se existir uma linha condutora entre o ontem, o hoje e o amanhã, uma linha harmoniosa. De outra forma, o futuro pode não ser futuro. Ou, melhor, pode não existir futuro.”

O barman depositou sobre a mesa um balde com várias pedras de gelo, retirando-se de seguida. As raparigas quedaram-se em silêncio por uns segundos. Que queria dizer o forasteiro que tinha uma voz tão doce, mas falava de forma tão brutal?

Ana quebrou o silêncio:

“O futuro é o futuro. E cada um de nós tem de acreditar nele, e lutar para que o nosso futuro seja o melhor futuro possível.”

João virou-se ligeiramente, depositando a cinza do cigarro no cinzeiro, colocou ambos os cotovelos sobre a mesa e, pela primeira vez desde que ali chegara, virou-se de frente para as raparigas, olhando-as, ora uma, ora outra.

“A vida é como um rio, sem água, mas com as mesmas correntes, os mesmos redemoinhos, a mesma ondulação ou acalmia. Há períodos em que a força das águas do rio da nossa vida leva tudo à frente, o lixo, a areia do fundo e até as margens milenares, e outras em que serpenteia suavemente, muito bonito, calmo, como se uma criança pequena lá pudesse banhar-se sem ajuda e ele a mantivesse, com bondade, à superfície. E, contudo, ele é sempre perigoso, obriga a permanentes cuidados.”

Ana olhou fixamente os olhos do forasteiro, recostando-se na cadeira e firmando as mãos nos braços da cadeira.

“Decifre lá a charada.”

Ele sorriu. “Afinal, ele sorri”, pensou a rapariga. “Sorri triste, mas sorri”.

“Não é charada.”

“Então?”

“É a constatação de factos.”

“Quer isso dizer...”

“Pode ser, por exemplo, uma espécie de aviso a duas jovens que ainda têm a vida pela frente, mas a quem falta a experiência... Vêem aquela montanha, além? Já lá estava quando vocês nasceram, mas também quando nasceram os vossos pais, e os vossos avós. E, contudo, nenhum deles conseguiu desvendar-lhe todos os mistérios. Podem tê-la observado cuidadosamente, podem ter descoberto novas formas, efeitos da erosão, mas nenhum a entendeu perfeitamente. É assim a vida. Caminhamos muitos anos mas nunca conhecemos tudo, por muito que observemos. Por isso é que devemos aproveitar a experiência de quem já viveu e pode levar-nos uns passos à frente no caminho a percorrer.”

As raparigas começavam a ficar cansadas das tiradas filosóficas do forasteiro.

“Podíamos estar aqui a falar em coisas interessantes, numa boa, e você quer estragar-nos as férias...”, disse Ana, ensaiando um sorriso ténue. “Essas coisas, podemos aprendê-las por nós próprias...”

“Pois podem, mas um caminho iluminado é sempre mais fácil de percorrer.”

“Há coisas que quanto mais tarde se aprenderem, melhor. Vamos ter o nosso tempo. Por agora, somos apenas duas jovens em férias numa pequena terra do interior, à espera que o tempo passe para voltarmos ao Porto e ao bulício da Universidade...”

Ele voltou a sorrir. Perguntou:

“Da universidade, ou da cidade?”

“Seja, da cidade. E você fala-nos do rio deprimente de certas vidas...”

“Pode ser.”

“Pode ser ou é?”

“Acho que pode ser.”

“Não somos crianças. Aos vinte e um anos já não se é criança.”

“Também já tive vinte anos, mas vai lá tanto tempo que nem me recordo bem.”

“E parece não ter gostado de os ter!...”

“É estranho. Mas recordo muito pouco desse tempo, quase pré-histórico na minha vida.”

“Parece-me que não lhe deixou saudades...”

“Não, nenhumas.”

Ana fixou-o nos olhos, precisava de lhe perguntar:

“Mas, desculpe-me perguntar-lho assim: qual é o seu problema?”

Percebeu uma leve indignação na voz da rapariga. Melhor seria terminar a conversa.

“Vocês querem regressar à cidade...”

 

*

 

Voltou aos seus vinte anos. Rememorou-se um jovem promissor de quem todos diziam bem, que jamais se meteu em drogas, em noitadas excessivas, que não desalinhou do centro. Aos vinte e poucos anos ganhava dinheiro, bastante dinheiro, casou, nasceu-lhe um filho, a vida rodando. Para onde? Que idealizava para si aos trinta anos? Uma reforma doirada, um ou dois netos, uma vivenda com quintal e um automóvel na garagem, para além de um bom dinheiro guardado nos cofres de um banco à espera de uma doença? E isso é vida? Se ao menos tivesse boa companhia para envelhecer... Envelhecer. Era isso, agora estava claro que precisa de envelhecer calmamente. Mas continuava a querer teimar. Apreciava o Sol, as noites quentes de luar, a luz tremelicante das estrelas, o borbulhar da água do mar, os cheiros da Natureza, o caminhar apressado de homens e mulheres... a vida.

 

*

 

Ana ainda esteve para lhe dizer que sim, que ele era uma seca, que o Álvaro era quem tinha razão, que ele era um cota. “Mas”, pensou, “não fui eu que vim meter conversa?” Não desistiria assim. A sua voz normalizou-se:

“Não é isso. Apenas podíamos falar em coisas mais alegres.”

“Como...?”

“Como essa sua viagem.”

“Visitei cidades, dormi em hotéis, comi em restaurantes, apreciei paisagens, entrei em catedrais, em museus, fui à tourada... e ouvi falar muito castelhano. O resto, como dantes.”

Sílvia olhava-o, muda. Como podia um homem tão charmoso ser tão aborrecido? Sorrira, vá lá que sorrira. Mas há certos sorrisos que não valem tanto como uma lágrima. Que homem!... Mas Ana não, não se calava:

“A sua vida é sempre assim, tão vazia, tão triste, tão...” Procurava um termo: “... tão insossa? Não tem casa...? Nem família...?”

O homem voltou a desviar os olhos para os fixar num além inexistente. Já não sorria, uma sombra fechou-lhe o rosto. Ana sentiu que lhe tocara na ferida, e que doera.

“Não tem família?”, repetiu, agora sentindo bem que era ele que estava farto da conversa.

“Não, não tenho.”

“Ninguém?”

“Já tive.”

“Já teve?”

“Já. Pai, mãe, irmãos...”

“Já não tem?”

“E um filho.”

Sentiu que a última palavra saltara a custo.

“E, agora, não tem ninguém?”

O forasteiro chamou o barman, pediu outra cerveja, acendeu novo cigarro e ficou-se por momentos a observar o fumo que subia em diagonal. Só depois respondeu, como quem se ajoelha aos pés do confessor:

“Meus pais, morreram. Meus irmãos, três rapazes e uma rapariga, partiram, um para cada canto do mundo... o meu filho... esqueceu-me...”

“Como esqueceu-me?”

“Deixou de me falar.”

“Tem quantos anos?”

“Dezasseis. Há um ano que cortou comigo, por causa da separação.”

“Ah, é separado?”

“Pois é.”

“E ele?”

“Ele, o quê?”

“Não fala consigo? Foi com a mãe, para outra terra?”

“Não, zangou-se.”

“Por causa da separação?”

“Não sei, nunca mo disse. Simplesmente, passou a virar-me a cara.”

“É da idade. Dezasseis é uma idade amalucada, a gente sabe.”

“Talvez seja.”

“Daqui por uns meses...”

“Pode ser tarde.”

“Como assim...?”

“Não sei. Não há ligação do ontem ao hoje, e do hoje ao amanhã. Pode não haver futuro.”

“Mas tudo tem remédio.”

“Claro que sim.”

“Posso perguntar-lhe...”

“Sim, claro, pergunte.”

“A sua mulher...”

“Ex-mulher.”

“A sua ex-mulher... que diz ela?”

“Não sei. A mim, nada.”

“E a ele?”

“Creio que lhe faz a cabeça.”

“E ele...?”

“Ele...?”

“Acha que no futuro não podem voltar?”

“Duvido. Já lhe falei sobre o futuro.”

“Pode acontecer?”

“Não.”

“Definitivamente?”

“Sim.”

“Mas, ele um dia há-de pensar: Estás a ser mauzinho. Afinal, ele é teu pai.

“Talvez. Pode é ser tarde.”

“Nunca é tarde. Sabe, minha avó dizia-me muitas vezes que mais vale tarde que nunca.”

“Mas às vezes, tarde é nunca.”

“Posso dizer-lhe uma coisa?”

“Claro.”

“Quando aqui parou...”

“Sim...?”

“Achámos que era um homem...”

“Um homem...”

“Como nós dizermos, um borracho.”

“Agradeço a bondade.”

“Mas, agora, eu acho que não é.”

“Ainda bem. Não tenho boa ideia de mim mesmo e não gosto muito que os outros a tenham. Acho sempre que se conhecessem a minha vida, as pessoas, mesmo as poucas que se relacionam comigo, se decepcionariam.”

“Já pensou que as coisas podem mudar?”

“Podem, quem sabe...”

“Amanhã o seu filho telefonar-lhe, explicar-lhe as coisas, as razões do amuo. Faço-lhe uma confissão...”

“Diga lá.”

“Não vai rir-se de mim?”

“Ninguém tem o direito de se rir de ninguém.”

“Eu também já passei por isso.”

“É?!”

“Estive mais dum ano sem falar ao meu pai. Meus pais também são separados. Depois, descobri que as minhas mágoas não tinham razão de ser, que eu não tinha o direito de me atravessar no caminho deles. Pedi-lhe desculpa e hoje somos bons amigos.”

O forasteiro sorriu de novo.

“Tenho que ir.”

“Não vai ficar?”

“Acho que não. Mudei de ideias. Sabe? às vezes sou frio, não vejo nada para além do hoje. Mas há ocasiões em que tento acreditar. Fez-me bem conversar convosco.”

 

*

 

Com um leve toque do polegar sobre a ignição, o forasteiro fez ronronar a Harley. Apertou a embraiagem e com a ponta da bota do pé esquerdo engrenou o motor. Arrancou, suavemente. Os mesmos lampejos brilharam nos cromados da máquina, que deslizou com a mesma graça da chegada. Ia contente. “Talvez um dia as coisas mudem”, pensou. “Ninguém pode dormir por toda a vida, há um momento em que acordamos e perguntamos: porquê? A vida só tem sentido se soubermos equacionar honestamente as decisões dos outros. Claro que sim, Ana tinha razão.”

Já em marcha, levantou a mão direita numa saudação última às raparigas, que também lhe acenaram um adeus.

 

 

 

 

 

 

 

José Abílio Coelho tem 43 anos. É minhoto da Póvoa de Lanhoso, onde continua a habitar mais por amor à linha do horizonte que ao carácter da "geografia humana". Publicou uns poucos livros, tem umas quantas crónicas e contos espalhados por jornais, revistas e colectâneas em Portugal e fora dele, e, como dádiva maior pelos anos de- dicados às letras conta-se a frase que Jorge Amado escreveu aquando da publicação do seu primeiro livro: "José Abílio Coelho necessita caminhar em frente; sua vocação é evidente, e lhe sobra talento..."

Obras do Autor                          Contos do Outro Mundo (1993)          Rascunhos da História (1994)      Caminhos de Terra Batida (1999)            Trapos (2000)

 

zeabiliocoelho@hotmail.com